Anteriormente: Parte 19
Na noite seguinte, encontrei Cláudio exatamente no mesmo lugar onde tínhamos conversado. Dessa vez, lá estava ele esperando por mim com um volume encadernado imenso nas mãos. Me aproximei, já imaginando do que se tratava.
- Isso aí é o atual estatuto do condomínio?
- Exatamente. Pode trabalhar nele esse fim de semana?
- Bem, esse meu sábado tá meio apertado, mas posso arranjar um tempinho pra começar.
- Ótimo. E sobre aquele outro assunto...
- Pode ficar sossegado, eu vou tentar resolver o seu problema. Não hoje, mas vou dar um jeito.
Ele sorriu, apertou minha mão tão forte que achei até que fosse quebra-la, então foi embora. Cansada do jeito que eu estava, deixei o estatuto em cima da mesa e depois do banho caí na cama sem nem mesmo ver a novela.
Sábado à tarde teve o chá de fraldas de Elisa, então para não perder a hora nem me enrolar, cuidei do serviço da casa todo de manhã [felizmente Renato parou um pouco para me ajudar nessa]. Enquanto dávamos uma geral na casa, fomos conversando sobre o resto da agenda do dia.
- Que é que você vai fazer hoje?
- Como não tem show, vou tirar a tarde pra dormir um pouco e de noite a gente podia sair, sei lá... Ir ao cinema, o que você acha?
- Boa. Tô voltando pra casa lá prumas cinco ou seis horas.
- Jô, me diz uma coisa: essa festa só vai mulher, né?
- É.
- Aquele seu ex não vai ficar circulando mesmo?
- Não, pô. Nessas festas só vai mulher mesmo, pelo menos até onde eu sei. E, no máximo, umas criancinhas, caso vá mulher com filho.
- Sei.
Só com aquele “sei” ficou mais do que claro que Renato não estava convencido de que eu não encontraria Adalberto na festa. E se tem uma coisa que me deixa agoniada é quando alguém não está totalmente convencido da veracidade do que eu falei – principalmente quando o alguém em questão é meu noivo e vive comigo. Logo, não fiquei calada.
- Renato, qual é o teu problema? Não me diz que tu ainda tem ciúme de Adalberto comigo.
E ele ficou calado. O silêncio só fez minha irritação crescer e deixei isso bem claro só com a minha cara, porque não queria engrossar mais do que já estava engrossando. Aí ele finalmente disse algo:
- Tu não disse pra eu não dizer que tava com ciúme? Pronto, não tô dizendo!
Aí foi demais. Eu estava com uma esponja de lavar pratos cheia de espuma na mão e taquei na cara dele.
- Besta!
Depois dessa, comecei a rir; mas ele não.
- Renatinho do meu coração, Adalberto é passado há pelo menos... Três, quatro anos, sei lá. E agora ele está com Elisa, se prontificou a assumir a paternidade do bebê e tudo mais. Esse teu ciúme é a coisa mais besta do mundo, sabia?
- Não consigo evitar...
- Acho que eu devia ter ficado com mais gente além dele quando a gente separou, pelo menos você não ia saber de quem sentir ciúme.
- Ou ia sentir ciúme de todo mundo.
- E se eu fizesse tudo escondida, como você ia saber?
- Ah, sei lá... Mas por que você não saiu ficando todo dia com um diferente?
- Porque eu gosto de estar com um só. – tirei o resto de espuma dele e o beijei – satisfeito ou quer mais?
Bem, ele pareceu convencido. Continuamos limpando a casa em paz, almoçamos em paz, fui para o apartamento e deixei Renato dormindo, como ele disse que ia ficar a tarde toda.
Chegando ao prédio, primeira pessoa que vi foi... Adalberto. Ele ia saindo com o carro e buzinou, chamando minha atenção na hora. Não teve como não lembrar da discussão idiota que tive com Renato pela manhã.
- Oi, Adalberto. Tudo bem?
- Tudo certinho. E você? Soube que tá quase casada.
- Pois é! Estamos todos bem, graças a Deus.
- Bem, eu vou deixar vocês com as fraldas e tomar um chope, volto mais tarde.
- Tchauzinho!
Encontrei Elisa e seu barrigão – imaginei que Joyce poderia nascer a qualquer segundo, no meio da festa mesmo – meninas da faculdade que eu não via desde a formatura, algumas pessoas do trabalho e outras tantas desconhecidas. Tudo correndo como um chá de bebê comum, com aquelas brincadeiras, Elisa toda melecada de tinta, pagando aqueles micos maravilhosos... Até que o interfone tocou e ela parou tudo para ir atender. Voltou olhando pra mim com cara de preocupada e fazendo sinal para conversar em particular.
- O que foi?
- Thiago... O carinha que acha que é pai da Joyce, tá lá embaixo.
- Sim, e?
- E quer falar comigo!
- E?
- Você acha que eu vou descer nesse estado pra falar com o cara?
- Quer dizer que você quer que eu vá.
- Me ajuda, por favor!
- Ele disse qual era o assunto?
- É sobre o exame. Se eu não entendi errado, ele pegou o resultado e quer me contar.
- Acho que você devia ir.
- Por favor, Joana! Dependendo do resultado, vou precisar tanto da sua ajuda...
- Já sei. Tá bom, eu vou lá, volta pra galerinha na sala.
Não tinha outro jeito mesmo, então desci para encontrar o tal de Thiago. Ele estava lá, com cara de nervoso e um envelope fechado na mão. Cheguei perto e já fui me apresentando.
- Oi, tudo bem? Não sei se Elisa te falou, mas tá rolando uma festinha lá em cima e ela não pode vir te atender. Meu nome é Joana, sou amiga dela.
- A advogada, mulher do Renatinho Som, né? Tô ligado, curto as músicas dele.
- Puxa... Quem não curte, né? – comentei, tentando aliviar um pouco o nervosismo do garoto.
Enquanto as apresentações eram feitas, Adalberto vinha voltando e em vez de entrar na garagem do prédio, estacionou e foi chegando para ouvir a conversa. Fiquei até surpresa de vê-lo se aproximar.
- Adalberto?
- Oi de novo, Joana. Eu vi o Thiago chegando, resolvi vir atrás.
- Eu só vim trazer o resultado do exame pra Elisa ver.
- Pois eu quero ver também.
- Tá certo, gente. Todo mundo vai ver o resultado junto, ok?
No meio daquela situação bem tensinha, outra surpresa. Renato, que estava dormindo, resolveu aparecer do nada lá na rua e me encontrou com Adalberto e Thiago. Ninguém deu pela presença dele até que o próprio resolveu anunciar a entrada triunfal da pior maneira possível:
- Mas você não disse que nessa festa não ficava homem nenhum? Como é que você tá aí com dois?
Virei bem devagarinho na direção de onde vinha a voz dele, e já contando: cinco, quatro, três, dois, um, pra não explodir. Olhei bem na cara dele e comecei a contar de novo: dez, nove, oito...