Anteriormente: Parte 17
Renato e eu combinamos voltar ao apartamento no dia seguinte às festas, para continuar os trabalhos de decoração, arrumação e outros que tais. Até então, tínhamos montado o guarda-roupa, o armário da cozinha e a cama. Faltava a mesa da cozinha, a mesa de centro, a estante. A penteadeira já tinha vindo armada, menos mal.
Logo depois do almoço, pegamos o rumo da nova casa. Começo de tarde sempre tem muito movimento pelas ruas e no nosso prédio – que não é muito alto, mas também não é dos mais baixinhos – também tem um movimento legal. No momento, está sem porteiro; mas o síndico faz às vezes de tio da portaria que vê televisão o dia inteiro em vez de ficar de olho em quem entra e sai do prédio. Aquela tarde foi a primeira vez que o síndico – e os outros moradores – nos viram. Eu sou basicamente essa ilustre desconhecida, Renato é a celebridade do casal e foi assediado como tal. Meninos e meninas de todas as idades iam até ele, pedindo autógrafo e dizendo “Renatinho Som, tu é massa!” O porteiro veio até mim, enquanto os pirralhos cercavam meu noivo como se ele fosse o presente de Natal, e não o conjunto de bola e rede de vôlei armada na grande área livre pavimentada por concreto.
- Esse é o Renatinho Som, né? Que aparece na TV de vez em quando...
- O próprio. E o mais novo morador desse prédio.
- Sério? Foi ele quem comprou aquele apartamento do quarto andar?
- Fomos nós. Ele e eu, a noiva dele.
- Ah, a novinha é você, é?
Fazia uns quatro meses que Renato havia feito sua primeira aparição na TV e me chamado por aquele apelido trash pela última vez. Sério, Renato tava me chamando de tudo: amor, Jojô, Joaninha e até pelo novíssimo Ladybug [meu favorito!], menos de novinha. Adorei aquela aposentadoria de apelido, porque era um sinalzinho ele tava se esforçando para ser criativo e me agradar. Mas o que eu não estava esperando era que meses depois, alguém fosse lembrar aquele apelido infeliz. Minha vontade era de fechar a cara pro sujeito para ver se ele sacava que não se trata desconhecidas com tamanha intimidade, mas lembrei que era o síndico que fazia às vezes de porteiro, então tinha que ser simpática. Tratei de exibir todos os meus dentinhos e responder na maior boa vontade:
- É, sou eu... Esse Renato me apronta cada uma...
- Muito prazer, sou Ayrton.
- Joana.
Apresentações feitas, me afastei e como Renato já tinha dado atenção a todas as crianças, conseguimos subir para nosso lar, doce futuro lar. O que faltava, conseguimos montar, apenas nós e os manuais de instrução, em poucas horas. Aliás, as pessoas deviam seguir mais os manuais: é a coisa mais direta, mais preto no branco do mundo inteiro. E ainda pode aprender algumas palavras em outras línguas, se pegar um manual bilíngue.
Estava tudo pronto, mas quando olhamos em volta, ainda havia muito a ser feito para que o apartamento parecesse realmente nosso, e não um apartamento que poderia ser habitado por qualquer casal recém-casado. Pensei que quando tivéssemos terminado de mobiliar tudo, ia ficar fácil identificar que nós éramos os moradores; mas ainda faltava alguma coisa.
- Pior que eu não sei o que é que tá faltando.
- Tá faltando a gente vir morar aqui e bagunçar, né?
Faltava barulho também: TV, som, computador, o teclado.
- E os vizinhos reclamarem com a gente.
Mesmo passando anos e anos juntos, quando a gente resolveu juntar os trapinhos numa casa totalmente nova num lugar meio distante de onde a gente vivia até então teve mais ou menos o efeito de nos dar uma folha totalmente em branco para rabiscar. Era o primeiro dia de uma coisa totalmente nova...
No fim da tarde voltamos para a casa dos nossos pais, ainda faltavam alguns dias para a mudança definitiva. Mas, mesmo assim, era o primeiro dia de uma nova fase para nós dois. O que também me lembrou videogames ou seriados de TV...
E não podemos esquecer de comprar a televisão!
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