Esta é uma obra de semi-ficção. Qualquer semelhança com fatos, nomes, lugares ou coisa parecida, será mera coincidência.

piątek, 13 stycznia 2012

O Fórum de Joana Bezerra - Parte 19

Anteriormente: Parte 18

As primeiras semanas no bairro novo foram mais ou menos o que se espera de um começo. Nada muito fácil, nada muito difícil. Mamãe, vovó e meus sogros aparecem por aqui a cada dois ou três dias, ainda estamos comprando algumas coisinhas para acabar de mobiliar... Mas o lugar está sendo cada vez mais nosso. E os vizinhos parecem ser mesmo legais. Claro que duas semanas ainda é muito pouco para saber se eles são legais com a gente porque são ou porque meu noivo/namorado/namorido/whatever é famoso.

Para tirar a dúvida, tenho ficado um pouco pelas áreas comuns quando volto do trabalho. Converso um pouco, mas passo a maior parte do tempo tomando sorvete e observando como são os outros moradores entre si. Até aqui, minhas impressões têm sido boas.

Essa noite aconteceu uma aproximação mais efetiva. Já falei do síndico que faz às vezes de porteiro e que me chamou de novinha logo no primeiro dia, né? Pois então: o trabalho no escritório esses dias anda tão excruciante que muito provavelmente ando com uma constituição e o código penal equilibrados na cabeça, porque todo mundo vem pra mim falar de trabalho, de processo, de tudo o que eu deveria deixar no escritório quando acabasse o expediente. Com o síndico não foi diferente...

- Boa noite, Joana!
- Boa noite, seu Cláudio.
- Veja só, você é advogada, não é?
- Sou. Atualmente trabalho com pequenas causas e ações familiares.
- Ótimo... Acho que vou precisar bastante da sua consultoria jurídica.
- E em que eu posso ajudar?
- A princípio, em duas coisas. Primeiro, o estatuto daqui do prédio precisa de uma revisão, eu estou trabalhando nela e queria que você desse uma olhada, me ajudasse a revisar tudo. Segundo, é uma questão de reconhecimento de paternidade...

Cláudio começou a desfiar em detalhes a história. Ele era casado – e muito bem casado, aliás – mas achou de se enrolar com uma ninfetinha que mora no último andar. Ela tinha uns 17 anos e meio, o que o deixou meio cabreiro no começo porque ele já tem quase seus cinquentinha. Mas a garota, de nome Cecília, era insistente, era matreira e acabou conseguindo o que queria: perder a virgindade com o síndico. 

Vou dizer: ele tem seu charme. Mas voltando ao rolo com Cecília, ele não acreditou muito na história de virgindade, porque a garota volta e meia aparecia se agarrando com um boyzinho pelos muros de Casa Amarela. Se era verdade ou não, já não mais importava, porque Cecília engravidou, o prédio quase caiu no dia em que o embriãozinho foi descoberto na barriguinha de Ceci – hoje ela tem 18 anos – e agora a moça vive reclusa dentro de casa. Cláudio desconfia que seja o pai, mas não sabe o que fazer, porque até agora ninguém sabe da puladinha de cerca – quer dizer, só eu, né? – e o povo nem cogita aponta-lo como suspeito. Muito pelo contrário! O chamaram para perguntar se ele tinha visto o rosto de um dos garanhõezinhos que costumava se esfregar com a menina na parede. Qualquer um era suspeito, menos Cláudio, ora vejam vocês.

Encerrada a conversa, garanti que ia dar uma força com o estatuto do condomínio e poderia até tirar um fim de semana ou um dos meus dias de folga para trabalhar nisso. Não que ele tivesse oferecido grana pela parte do estatuto, mas como eu sou moradora do prédio, é coisa de interesse meu também, né? Quanto à parte do processo de reconhecimento de paternidade, achei aquele caso tão complicado ou até mais do que o rolo de Elisa. Bem, pelo menos ela é solteira e maior de idade; enquanto o caso daqui do prédio envolve uma recém-maior de idade e um sujeito quase 30 anos mais velho, casado há quase trinta anos. Punk, não?

Falando em Elisa, o chá de bebê tá aí, na minha cara; e ainda não tinha ido comprar o pacote de fraldas que tinha sido pedido no convite. Como já estava meio tarde, liguei para Renato e pedi que ele passasse em uma farmácia 24 horas para comprar as fraldas depois do show.

Até aí, tudo bem. Na certeza de que ele não ia esquecer de trazer as benditas fraldas, vi um pouco de TV, me entreguei ao sono e dormi no sofá mesmo, com TV ligada e tudo. Ela desligaria sozinha depois de meia hora, mais ou menos. O que eu não esperava era que além das fraldas, Renato me chegasse em casa com uma das histórias mais lindamente hilárias que já ouvi na vida.

Já era umas duas da madrugada quando ele chegou me cutucando:

- Jô, sabe aquela hora que você me ligou? Eu ainda não tinha subido no palco e acho que alguém escutou a conversa.

- Como assim? – eu ainda estava meio grogue.

- O telefone tava no viva voz.

- Ah... – foi tudo o que eu consegui responder, porque né, duas da manhã, eu tinha dormido no sofá e havia acordado não tinha nem cinco minutos. Se eu estivesse mais desperta, Renato ia levar babau por ter deixado o aparelho no viva voz. Já pensou se o assunto fosse mais sério do que uma compra prum chá de fraldas?

- Bem, alguém ouviu e espalhou que eu ia ser pai. Quando eu vi, alguns fãs mais metidos a engraçados arremessaram um monte de pacotes de fralda no palco. – e aí ele começou a rir – Não é muito doido isso?

- É...

- Olha lá quanta fralda. Desmenti a história, mas foi tão engraçado que até improvisei cover de Pare de Tomar a Pílula.

Renato apontou para o canto da sala onde tinha deixado os pacotes que, no começo, achei que era apenas um multiplicado pelo meu sono descomunal. Felizmente, ele percebeu que eu estava mais para conversar com o travesseiro, me pegou no colo, deu um beijo de boa noite e apaguei.

Só quando o despertador tocou, me arrastei para a sala e vi a pequena pilha de pacotes de fraldas é que lembrei da conversa truncada da madrugada e desatei a rir porque era tudo de verdade. Passada a crise de riso, peguei o pacote que ia levar para a festa de Elisa e tive umas boas ideias do que fazer com as fraldas remanescentes, já que [por enquanto] não haveria rebento nenhum aqui em casa.

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