sexta-feira, 5 de julho de 2019

Era mais uma traição, entre tantas. Ela havia jurado a si que não suportaria mais. Como aquele homem que lhe jurara amor eterno podia fazer-lhe aquilo. Mesmo tendo sido tantas, ela lembrava de cada uma das vezes. A dor cruel, tal qual um aborto que lhe machucava o baixo ventre, essa dor que não tem fim.
Nas primeiras vezes ela chorava sem pena de si, tinha pena dele, que traiu não a ela, traiu ao amor dos dois, às juras , às promessas, às luas, os beijos roubados, ao sentimento que era só deles. Onde ela teria errado? Por que ele precisou buscar se o lar era pleno? Por que a plenitude não o preenchia mais? E assim seguiu-se outra e mais outras. O homem a quem ela amava parecia castigar-lhe, quando estava prestes a melhorar, mais um ato a levantar a casca da ferida que era quase cicatriz. O sangue brotava forte, como a dizer que ali mora uma dor.
O que fazer agora? Em todas as outras vezes ela tentava. Perdoar é uma palavra muito forte e por isso mesmo ela, talvez, nunca tivesse conseguido. Sua vida era um cristal trincado. Superar, também parecia distante. Como olhar-se, como olhar os outros, mesmo que não soubessem, ela sabia, se julgara e se condenara. Que prazer pode ser esse, o do tormento ao outro? Jurou nunca ser como ele, mas isso não a fazia melhor. Separar, parecia uma dor menor, diante das noites intermináveis de cama fria, de perguntas ocas . Como deixá-lo continuar , recomeçar uma outra relação, depois de tudo que lhe tinha feito? Pior! Como deixar que outras passassem pela dor que ele lhe dera? Não parecia justo . Que necessidade era essa de ser caudilho?
Um dia triste, ela decidiu alegre, que dessa vez faria diferente. Guardou o medo e a vergonha. Desenhou com batom uma cara feliz, vestiu-se de seda e enigma. A atração não tardou. Por um momento o poder de decisão a preencheu, outro homem lhe desejava. Ele se acercou de seu cheiro e de seu corpo, ela o cativou, o seduziu, o corrompeu. Pobre presa! Ele se encantou, se apaixonou, jurou e implorou uma história. Ela não quis, deixou o amante.
Voltou pra casa, nada mudara, nem ela. O marido a trata como antes, ela cuida dele como antes, só não lamenta como antes. A única certeza é que a mesma moeda não é antídoto para essa dor.

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